terça-feira, 9 de junho de 2015

Pequenos ditadores

Aos consultórios médicos chegam cada vez mais "pequenos ditadores" que os adultos já não conseguem controlar. São filhos de pais que têm medo de ser tiranos. Mas as crianças sem limites não são livres, defendem especialistas
"Não vou". "Não quero". "Só faço se quiser". O problema não é uma criança dizer isto. O problema é quando ela faz precisamente o que diz e os adultos já não têm o poder de a contrariar. Não é uma questão portuguesa mas da generalidade das sociedades ditas desenvolvidas. Os consultórios dos pedopsiquiatras e dos psicólogos estão a encher-se de meninos-rei, pequenos ditadores, crianças sem limites, algumas a caminho da delinquência apresentadas por pais aflitos e referenciadas por professores fartos.
Mais do que um problema, a omnipotência destas crianças é um sinal. Tem a ver com a falta de limites que resulta de uma organização social desregrada, sem tempo para o investimento emocional na criança.
A perspectiva da necessidade de construir "uma cultura da diferença de tempos" defendida pelo filósofo e psicanalista francês Raymond Bénévenque, para quem "é no mundo dos adultos que se deve lutar por um outro futuro das crianças", encontra-se nos discursos do médico pedopsiquiatra Pedro Strecht e das psicanalistas Carmo Sousa Lima e Maria Teresa Sá. Por trás do problema das crianças sem limites, identificam a falta de tempo, a velocidade que muitas vezes não deixa pensar. E a incapacidade de pensar dá lugar à depressão que tem como uma das manifestações a chamada omnipotência infantil.
Em educação tem de haver tempo. "Para haver qualidade, tem que haver quantidade e disponibilidade", considera Pedro Strecht. "Os pais passam muitas horas a trabalhar, muitas crianças chegam a estar 10, 11 horas em jardins de infância e na escola. O reencontro no final do dia acontece numa situação de grande vulnerabilidade emocional com crianças cansadas, com birras, com pouco tempo para cumprir as rotinas e com pais extremamente cansados do trabalho, portanto num ponto de desencontro, de choque e de conflito. Pela falta de tempo e pela culpabilidade dos pais em relação a isso, a permissividade aumentou e aumentou aquilo que vários autores chamam os objectos compensatórios, no que respeita tanto a objectos como à própria relação". A delimitação de regras fica para trás e o que se observa muito hoje - diz Pedro Strecht - é que "temos cada vez mais miúdos que num registo familiar não têm estas balizas e que depois transportam para outros registos, a escola, a sociedade" toda a sua inquietação.
A dificuldade de impor e de aceitar limites paga-se "caro vida fora", adverte Maria Teresa Sá. "Os pais têm medo do poder. Como que sofrem de um excesso de democracia [entre aspas]. Há uma perversão, como na democracia. Muitos pais têm dificuldades com os limites porque têm medo de ser tirânicos. Têm medo de ser como os pais, como os avós ou como o modelo que eles intuíram da sociedade antes deles", diz Carmo Sousa Lima.
E os exemplos sucedem-se: na escola, António, dez anos. A professora anuncia: "Hoje é teste". Ele cruza os braços: "Não faço". E não faz.
Em casa: Rita, nove anos, filha única. A mãe diz-lhe para desligar o computador e ir para a mesa jantar. Ela continua imóvel à frente do ecrã. A mãe repete a ordem. A miúda não se mexe. Já irritada, a mãe aproxima-se e desliga o computador. Rita protesta, grita e volta a ligar o computador. Empurra a mãe, não vai jantar.
No consultório médico, Pedro, oito anos, para o pedopsiquiatra: "Olha, já parti portas, um dia se tu quiseres, também posso partir esta do teu consultório... Se quiseres ver..."
O número de casos "é muito significativo e, sobretudo em relação a anos atrás, é muito mais intenso", diz Pedro Strecht.
A importância da autoridade
O que faltou ou o que tiveram a mais estas crianças para se tornarem assim? Strecht recua até aos primeiros tempos da vida da criança e da relação precoce com os pais. Refere o médico psicanalista inglês Donald Winicott e a sua ideia de "holding" para explicar a necessidade do envolvimento da criança "num círculo de amor e de força" juntando o afecto e o investimento emocional à fixação de limites. "Na própria relação com o bebé, é isso que se faz", explica o pedopsiquiatra. "Quando um bebé está inquieto, a pessoa pega-o ao colo, envolve-o fisicamente. A modelação emocional é feita também à custa de um "holding físico". O que acontece depois é que os miúdos vão integrando progressivamente e de forma cada vez mais autónoma o holdingemocional sem ser preciso tanto o holding físico, de uma forma cada vez mais auto-regulada". Quando isso não sucede pode querer dizer "que não houve esse holding físico de delimitação, de força, no "sentido de contenção emocional e verbal."
A explicação para as manifestações de tirania por parte destas crianças passa então pela pergunta acerca do que tiveram elas a mais. Como nota a psicanalista Carmo Sousa Lima, "o excesso de sim perturbou a capacidade das crianças tolerarem o não", mas "é o não que faz valorizar o sim e não o contrário". Depois do período de "maravilha" e de "encantamento" que rodeia o bebé nos primeiros tempos, os pais devem educar os filhos para a realidade, defende. "Há aspectos da realidade de que os pais não podem proteger a criança sob pena de esta enlouquecer ou cair nessa omnipotência que agora é tão corrente aparecer nos consultórios". Há pais, mães que "são de uma ansiedade tal que a criança não pode sair de dentro delas e continua a viver numa espécie de uma bolha protectora, mas que a vai destruindo em termos de autonomia e de identidade", diz, sublinhando que "são os limites que protegem a criança".
Ao contrário do que muitos adultos ainda pensam, "uma criança sem limites não é uma criança livre", diz Teresa Sá, psicanalista e professora na Escola Superior de Educação de Santarém. Que se desfaça a confusão: "Uma criança sem limites é escrava das suas pulsões e não é feliz, vive angustiada". Entregue a si própria "não tem outro guia senão a satisfação imediata". Se quer uma coisa, agarra-a, se não está contente, bate. E se, a curto prazo, isto até pode ser agradável, "paga-se caro, vida fora". Teresa Sá explica como. "Constitui-se como um verdadeiro sofrimento psíquico, visto que o sujeito se encontra na impossibilidade de se frustrar minimamente, de dizer não a si próprio, e não somente de dizer não ao educador". O que correntemente se designa por omnipotência, "não é unicamente a vontade de dominar os outros e de não levar em conta senão o seu próprio desejo, mas, de igual modo, a impotência e a impossibilidade de se dominar a si mesmo, de se limitar", esclarece. "Parecendo dono do mundo, o sujeito está na verdade desmunido, pois não se sente dono do seu próprio mundo interno".
Daí, a importância da autoridade na educação. Carmo Sousa Lima fala antes do exercício de um "bom poder". A capacidade de lidar com os limites "é um poder muito bom, indispensável", diz. "Todos temos uma margem de poder que está em tudo. Podemos falar, comer, amar, mas há pessoas que não podem. Há patologias que não deixam. Por isso, a palavra o poder em si própria é uma palavra muito boa, com um sentido muito profundo". O bom poder "é o poder de dizer "não" na justa medida das coisas que são razoáveis dizer que não. E de dizer que sim naquilo que ajuda a criar uma melhor pessoa".
É a autoridade "exercida pelos educadores (pais, professores, instituição) que permite à criança e ao jovem integrar os interditos fundamentais ligados à socialização", salienta Maria Teresa Sá. "Um adulto que permite tudo não é, para a criança, um adulto que lhe dê segurança".As crianças reclamam, aliás, esses limites quando levam os adultos ao limite (a "passarem-se da cabeça e agirem"). É "como se a criança estivesse a levá-los a colocarem limites". E quando isso não se verifica, "pode acontecer que seja a própria criança ou jovem a colocar o limite, em escalada, geralmente com o corpo, caindo, magoando-se, pondo-se em perigo". Sem autoridade "a criança sentir-se-á insegura, deixada só nas perigosas marés da sua impulsividade e destrutividade, abandonada, negligenciada", nota Maria Teresa Sá.
Pedro Strecht alerta, contudo, para o facto paradoxal de, a par da permissividade, existir um regresso ao autoritarismo" e para a necessidade de isso não acontecer. Face às ideias de que, para enfrentar os problemas da educação é preciso uma "educação espartana" e que "antigamente é que era bom", Strecht diz que "não há nada mais falso". "Sabemos que no campo da saúde mental e da infância, isso é absolutamente mentira". E lembra: "Se hoje as escolas estão cheias de problemas, em 1974 a escolaridade obrigatória limitava-se à quarta classe. E se formos ver, há cem anos não havia meninas nas escolas e a maioria da população escolar andava descalça e isso é que era um problema".
Tem de haver autoridade, sim, mas uma autoridade "protectora", defende o pedopsiquiatra. Que proteja as crianças "dos seus próprios movimentos mais primitivos, mais agressivos", nota Carmo Sousa Lima. Uma autoridade com afecto como defende o psiquiatra Daniel Sampaio. Para promover o desenvolvimento e a autonomia. E "passar de uma navegação à costa para uma navegação à distância", sem a perder de vista, exemplifica Pedro Strecht, deixando claro que se não for feito na infância, este trabalho se tornará muito mais difícil na adolescência.


Retirado de: 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Visita à RioGráfica

No dia 3 de junho, quarta-feira, a professora Conceição Ribeiro, responsável pelo atelier "À Descoberta da Meio", no âmbito do projeto "Aprendizagens para a Vida", levou um grupo de alunos com necessidades educativas especiais a conhecer uma empresa gráfica do meio local: a RioGráfica.

Na RioGráfica, foram muito bem recebidos pelo Senhor Paulo, que explicou as várias fases do trabalho realizado na gráfica, desde a conceção até ao produto final.

Porque se trata de uma empresa moderna, quase todo o trabalho é feito por máquinas. O nosso guia mostrou-nos essas máquinas, algumas em pleno funcionamento. No final podemos apreciar alguns trabalhos realizados.

Foi uma manhã muito interessante e cheia de novas aprendizagens.


Obrigado à RioGráfica pela simpatia e disponibilidade! 


Receção e início da visita à gráfica

As primeiras máquinas de impressão - para trabalhos mais pequenos
Sr. Paulo a explicar como se começa as impressões de grandes dimensões

Tamanho e quantidade de papel utilizado nas máquinas de impressão de trabalhos maiores

E com apenas quatro cores, preto, magenta, amarelo e azul se podem fazer todas as outras. Magia!

Depois o Sr. Paulo explicou muito bem como se fazia a impressão nas máquinas grandes

Que belo trabalho final!

Há trabalhos que precisam de ser cortados com muito cuidado numa máquina especial.

Para fazer os vincos e buracos no papel há outra máquina...

... e para dobrar também.

Obrigado RioGráfica!!!




sábado, 6 de junho de 2015

RIVVS MAIOR MERCATVS

Nos dias 5 e 6 de junho, os alunos e professoras da Educação Especial participaram no Mercadinho Romano de Rio Maior, com produtos dos ateliers desenvolvidos no âmbito do Projeto "Aprendizagens para a Vida".

No mercadinho, apresentámos Cuppidae Roman (doces romanos) feitos no atelier de Cozinha e Atividades Domésticas numa das bancas e, na outra banca, Laurus nobillis (louro), Origanum (orégãos), Petroselinum crispum (salsa), Coriandrum sativum (coentros) e outros produtos da nossa Hortum (atelier de Horta).

Muitos foram os clientes que marcaram presença nas nossas bancas e com muita alegria foram recebidos pelos alunos trajados a rigor.

Dois dias muito bem passados neste evento romano!

Um dos grupos do Emporium Hortum (banca da Horta)

O grupo da banca dos Cuppidae Roman (doces romanos)

O outro grupo do Emporium Hortum (banca da Horta)

A sr.ª D. Isabel recebeu um abraço da romana mais simpática do Emporium Hortum

O João, vestido a rigor, levou companhia ao Mercadinho Romano

Recebemos no nosso Emporium Hortum a visita dos alunos do 1.º Ciclo do EB Marinhas do Sal

Aplicaram-se conhecimentos de Matemática...


... e houve diversão nos jogos romanos.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

1 de junho - DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

        No dia Mundial da Criança, os alunos de Educação Especial comemoraram a efeméride de forma muito artística e muito colorida.
        A professora Beatriz Maria Gomes, da Universidade Sénior de Rio Maior, dinamizou um worshop para personalizar t-shirts. Cada aluno deu largas à sua imaginação e coloriu a sua t-shirt com várias cores.

O início da atividade

A escolha dos moldes e das tintas

A professora Beatriz Gomes a demonstrar uma outra técnica

Que belo efeito!!!

















     1.ª secagem das t-shirts pintadas com o auxílio do secador


Energia criativa em ação

Uma t-shirt em fase de acabamento

"Temperar" com sal a t-shirt e borrifar muito bem com água

Retoques finais...



               











 Duas das t-shirts personalizadas. Muito originais!

terça-feira, 2 de junho de 2015

Observatório da Deficiência aponta o dedo às escolas

O Observatório da Deficiência e Direitos Humanos diz que a maioria das escolas não consegue dar resposta às necessidades das crianças com deficiência. Paula Pinto, representante do observatório, diz que os problemas nas escolas criam "resistências" à ideia da inclusão.

Para visualizar a notícia, siga o seguinte link: 


RALF identifica alterações no desenvolvimento da linguagem em crianças até aos seis anos

2015-06-01
As investigadoras Ana Rita Valente, Marisa Lousada e Ana Mendes (clique para ampliar)
As investigadoras Ana Rita Valente, Marisa Lousada e Ana Mendes 
Em cinco minutos apenas permite que pais, assim como, profissionais de saúde e educação identifiquem se as crianças entre os três anos e os cinco anos e 11 meses têm ou não adquiridas as competências de linguagem e fala típicas para a respectiva idade. O instrumento chama-se Rastreio de Linguagem e Fala (RALF), é o único preparado para crianças que tenham o português-europeu como língua materna e foi desenvolvido por investigadoras da Universidade de Aveiro (UA) e do Instituto Politécnico de Setúbal (IPS) com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. 
“A grande mais-valia deste instrumento é permitir a realização de um rastreio de linguagem e fala de forma rápida [aproximadamente cinco minutos] que ajude os profissionais de saúde e de educação [pediatras, enfermeiros ou educadores de infância, por exemplo] a perceber se a criança já adquiriu as competências de linguagem e fala fundamentais para a sua idade”, explica Marisa Lousada, uma das terapeutas da fala e investigadora que desenvolveu o RALF. A directora de Curso da Licenciatura em Terapia da Fala da UA diz que “o instrumento tem exemplos concretos que ajudam a clarificar os diferentes itens em análise, sendo esta também uma vantagem”.
Interessa perceber se a criança já adquiriu as competências de linguagem e fala fundamentais para a sua idade

Interessa perceber se a criança já adquiriu as competências de linguagem e fala fundamentais para a sua idade


Os profissionais que trabalham com crianças em idade pré-escolar podem agora facilmente encaminhar as crianças que deverão realizar uma avaliação por parte de um terapeuta da fala. “A actuação ao nível da prevenção permite uma identificação das perturbações em fase inicial evitando o insucesso escolar, na medida em que uma grande percentagem de crianças com perturbação na aprendizagem da leitura apresentou previamente uma perturbação da linguagem oral”, reporta Ana Mendes, investigadora e docente do IPS.

O RALF contempla três faixas etárias – até aos quatro, até aos cinco e até aos seis anos - que contêm indicadores, ou seja, capacidades de fala, linguagem ou metalinguagem que descrevem marcos típicos do desenvolvimento linguístico em cada idade. Associado a cada indicador existe um exemplo concreto que o esclarece (por exemplo, “se pedir à criança para dizer o nome de dois brinquedos, ela diz bola e legos”). O rastreio é constituído por um manual e por uma folha de registo, aponta Ana Rita Valente.

O RALF, que a empresa EDUBOX da Incubadora de Empresas da UA se prepara para comercializar, foi construído com base em dados linguísticos normativos. Foi também analisada a validade e fiabilidade, tendo-se concluído que é válido, fiável, sensível e específico, constituindo uma mais-valia para uma identificação precoce de crianças com alterações de linguagem e/ou fala.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

"No nosso modelo de sociedade as crianças têm demasiado poder”

20 de maio de 2015, por Notícias ao Minuto

Daniel Sampaio defende a necessidade de se educar os jovens pelo carácter.

No nosso modelo de sociedade as crianças têm demasiado poder”

         Em análise ao comportamento dos jovens nos dias de hoje, o psiquiatra Daniel Sampaio refere que as crianças têm “poder a mais” e que os pais têm que recuperar a sua “autoridade”.
         “Uma família não é uma democracia. A família tem que ser conduzida pelos adultos e os jovens têm que perceber que têm que ter respeito pelos pais”, começou por afirmar, considerando que “no nosso modelo de sociedade as crianças têm demasiado poder”.
         O mesmo passa-se nas escolas, onde “os professores são postos em causa à mínima coisa”.
         “As salas de aula são hoje um teatro de indisciplina. Há centenas de aulas que não são dadas por indisciplina e ninguém reflete nisso”, reforça, defendendo que essa autoridade tem de ser conquistada sem “autoritarismo” mas ouvindo também o que pensam os mais novos.
         A “educação do carácter”, defende, é a solução.