segunda-feira, 4 de abril de 2016

HIPERATIVIDADE(S): SE NÃO PARA QUIETO, COMO PODE ESTAR ATENTO?

Não estamos sempre a ver a mesma coisa quando olhamos para comportamentos hiperativos. Por detrás da hiperatividade está muitas vezes a desatenção. E é esta que é preciso cuidar.
Se não para quieto, como pode estar atento?» Esta é a queixa frequente de professores e pais ao fim do dia ou à volta dos trabalhos para casa. Mas o universo de perguntas não respondidas é muito maior: por que razão é tão atenta ou atento para as coisas que lhe interessam e tão pouco ou nada para outras? E por que razão tem «brancas» nos testes, quando tudo sabia na véspera? E por que é tão difícil memorizar, embora se lembre de coisas que já ninguém recorda? E por que é que nem as coisas de que gosta consegue levar até ao fim? E por que é tão fácil fazer amizades e tão difícil mantê-las? E por que salta sempre de uma coisa para a outra?
Estas e outras questões, mais ou menos enigmáticas, fazem parte da rotina das inquietações de pais, professores e outros «grandes» que têm de lidar com os mais pequenos e adolescentes que muitas vezes se distinguem por não conseguirem «parar quietos». Certo é: muitas vezes, mas nem sempre. O conceito de hiperatividade é porventura um mau serviço prestado à causa dessa perturbação do desenvolvimento que se chama «défice de atenção». Hiperatividade é apenas um aspeto ruidoso, mas pouco importante, da problemática da desatenção, que prejudica, além do aproveitamento na escola, o comportamento em casa, a interação no recreio e a autoestima. A hiperatividade varia ao longo do dia e das circunstâncias e que se vai atenuando com o crescimento. O problema na atenção é que veio para ficar.
Haverá basicamente dois tipos de distraídos: os que estão de tal forma concentrados numa coisa que não pensam em mais nada (como o guarda-redes à espera do penalty!) e os que prestam «atenção» a tudo, inclusive à mosca que passa, e não se concentram em nada!
É destes últimos, com ou sem a tal de hiperatividade, de que a «gente grande » se queixa. Na verdade, o que de facto os distingue é que os primeiros, os guarda-redes, estão como que muito acordados, em vigília, focados apenas no que é importante e ignorando o que se passa à volta, ao passo que os segundos estão como que menos acordados, passeando pelos seus pensamentos e reagindo por vezes de forma sobressaltada, «hiperativa», aos estímulos que aparecem, quase, metaforicamente falando, quando um telefone toca no momento que estamos quase a adormecer!
Todos passamos diariamente por estes dois estados, ora bem ora mal acordados. A diferença é que nestas crianças e adolescentes é como se o estado «menos bem acordado» entrasse pelas horas da escola e dos TPC prejudicando a sua capacidade para aprender e usar o que sabe. Todas as medidas usadas até hoje para aumentar a concentração – desde as reguadas, agora proibidas por lei, ao levantar a voz, ao sentar na primeira fila, ao trabalhar com pouca gente e coisas à volta, ao desporto, ao café, até aos medicamentos estimulantes – não farão outra coisa se não aumentar o grau de vigília.
A causa principal desta desatenção, hoje tão «diagnosticada» como hiperatividade, estará nos genes, numa tendência herdada e transmitida nos cromossomas, que limita o tempo de prestar atenção a determinado assunto. O estar «menos bem acordado» durante uma aula penaliza a capacidade de bloquear o acesso à paisagem cerebral do que não é importante naquele momento: alguém que riu lá atrás, a mensagem no telemóvel, a preocupação sobre os problemas no recreio ou em casa, a sensação de bexiga cheia… O resultado é o mesmo, com ou sem externalização ou movimento que é no fundo a dita hiperatividade.
Com esta tendência – como com tudo o que queremos reter quando estamos cansados e com sono – as matérias não passam da memória RAM para o disco rígido. E mesmo tendo sido percebidas, não ficaram estáveis para o dia do teste. Não temos nenhum motivo sério para acreditar que haja agora mais gente desatenta do que no passado. O que de facto mudou foi a estrutura familiar e como esta se interrelaciona: as famílias são mais pequenas, os pais estão menos disponíveis, muitas crianças não têm irmãos com quem aprender a partilhar a atenção e os objetos, com quem aprender a esperar, e estão rodeadas de ecrãs e de aparelhos que dão acesso a tudo e no tempo de um clique. Para além destes novos dados, sucede que este comportamento irrequieto poderá até ter sido reforçado em casa, quando adultos, embevecidos pela «personalidade forte» da criança, acham graça a ser interrompidos e ignoram até quando lhes levantam a mão.
A escola passou a ser para todos, indiferente a perfis desiguais no que diz respeito à capacidade para focar. Esta escola democrática não consegue responder com a sua nova pedagogia de tolerância e trabalhos feitos na net que levaram a uma menor interiorização de conteúdos e regras, e maior volatilidade do que se aprende.
Neste cenário, professores, médicos e técnicos contabilizam a quantidade de movimentos e de asneiras das crianças e fazem, literalmente, diagnósticos a partir de escalas e tabelas.
Tudo isto conduz naturalmente a esquecer a obrigação clínica de despistar questões emocionais que podem estar na base de comportamentos desatentos ou irrequietos e de tirar o retrato atualizado ao ambiente em que se movem.
A medicação, que não tem problemas de habituação ou dependência – ao contrário do que consta na internet e até na bula – surge como uma solução fácil e milagrosa, modulando o comportamento de crianças e jovens por os deixar mais quietos. O que é um efeito indesejado – ou mesmo tóxico – quando o que se pretende é deixá-los mais atentos.
Hoje, há um excesso de diagnósticos e de medicação em muitos casos, bem como de práticas erróneas que têm em conta indicadores pouco fiáveis, como o controlo da atividade. Estas práticas podem estar a ignorar a necessidade de outras importantes intervenções, como a psicológica ou psiquiátrica, nos jovens, nos seus hábitos e nos adultos de quem dependem.
Quem medica com estimulantes deve ter em conta que o importante é cuidar, não da hiperatividade ou das notas mas sim da atenção e das questões emocionais. A desatenção pode de facto prejudicar, de forma encadeada, todo o quotidiano destas crianças e adolescentes no seio familiar, no aproveitamento escolar, no recreio, no comportamento social e na autoestima. Tudo isto não é bom para quem está a crescer.
* Parceria NM/CADIn – Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil. Pedro Cabral é neurologista pediátrico e diretor clínico do CADIn.

terça-feira, 29 de março de 2016

Alunos que frequentam o pré-escolar mais do que um ano chumbam menos

Em duas décadas a taxa de pré-escolarização das crianças com 5 anos passou de 53% para 96%

A frequência do pré-escolar faz a diferença? Olhando para a percentagem de chumbos registada entre quem andou num jardim-de-infância durante um ano ou mais e quem só se estreou na escola aos 6 anos tudo indica que sim.
Os investigadores do projeto Aqeduto, apoiado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) e pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, cruzaram vários dados do PISA e concluíram que 29% dos alunos com frequência de um ano ou mais de pré-escolar chumbaram pelo menos uma vez até aos 15 anos. Mas essa taxa dispara para os 46% entre os estudantes da mesma idade que não andaram no jardim-de-infância. Ou seja, concluem os investigadores, “estes resultados parecem suportar a ideia de que a influência do pré-escolar se torna mais visível quando as crianças o frequentam por um período mais prolongado”.
Recorde-se que Portugal tem uma das mais altas taxas de reprovação da OCDE: até aos 15 anos, um em cada três alunos chumbou pelo menos uma vez.
Estes resultados são discutidos hoje ao final do dia, no CNE, na apresentação deste que é o quarto estudo desenvolvido no âmbito do projeto Aqeduto. Encontrar explicações para as variações dos resultados dos alunos portugueses nos testes PISA (realizados nos países da OCDE de três em três anos) é o objetivo.
Mas se mais anos em ambiente escolar estão associados a resultados mais altos na avaliação nacional, os investigadores já não encontraram essa relação no que respeita ao desempenho dos jovens na literacia em leitura avaliada no PISA. “Verifica-se uma melhoria subtil dos resultados dos alunos que frequentaram o pré-escolar, embora este impacto não seja determinante”, concluíram.
O que é evidente é a evolução que o país registou nos indicadores de frequência do pré-escolar. A taxa de pré-escolarização para crianças de 5 anos passou de 53% em 1990 para 96% em 2013. E quem beneficiou mais deste alargamento da rede foram as famílias dos estratos socioeconómicos e cultural mais baixos.
Ainda assim, há diferenças assinaláveis entre classes. Se, em 2012, 94% das famílias com estatuto socioeconómico alto tinham os filhos em idade pré-escolar num estabelecimento de ensino, em relação aos agregados com estatuto baixo esse valor estava nos 80%.

Por Isabel Leiria

segunda-feira, 7 de março de 2016

Exames nacionais 2016

O Ministério da Educação publicou, na passada sexta-feira, dia 4 de março de 2016, em Diário da República a Portaria n.º 61-A/2016, que aprova o regulamento do Júri Nacional de Exames (JNE) e do Exames do Ensino Secundário.

Para consultar a portaria na integra siga o link:
http://dislexia.pt/wp-content/uploads/2016/03/Portaria-61-A2016.pdf

sexta-feira, 4 de março de 2016

Pré-escolar… um imperativo educativo

A frequência do Ensino Pré-escolar é fundamental no lançamento das bases de um percurso educativo de sucesso. Crianças que ficam em casa até iniciarem a frequência do 1º Ciclo iniciam a sua escolarização com competências menos estimuladas e consequentemente o esforço que têm de despender para chegarem ao nível de desenvolvimento e estimulação de um aluno que inicie a frequência do pré-escolar com três anos é muito superior.
Para além das competências escolares menos desenvolvidas, a falta de interação com a multiplicidade de pares que encontra na escola limita também as competências de sociabilização das crianças. Um aluno habituado a interagir em grupo, desde tenra idade, terá muito mais facilidades em responder de forma positiva aos desafios sociais com que se deparará ao longo da vida.
Uma outra vantagem da frequência do Ensino Pré-escolar é a possibilidade de identificar atrasos no desenvolvimento numa fase ainda inicial e permitir o desenvolvimento das estratégias necessárias para levar a criança a superar as suas dificuldades ainda antes da entrada no 1º ciclo.
As vantagens para a criança que referi anteriormente e a importância subsequente do ensino pré-escolar encontram-se referidas na Lei-quadro da Educação Pré-escolar. “São objetivos deste nível de ensino promover e fomentar o desenvolvimento pessoal e social da criança assim como a sua inserção em grupos sociais diversos”. É ainda objetivo do ensino pré-escolar, conforme estatuído no seu quadro legal, “contribuir para a igualdade de oportunidades de acesso à escola e para o sucesso na aprendizagem”.
Paralelamente às vantagens diretas para a criança, também as famílias beneficiam profundamente com a garantia de que o sistema educativo está totalmente preparado para receber as suas crianças, independentemente da sua condição socioeconómica.
As exigências sociais e profissionais que se colocam hoje às famílias são uma dificuldade acrescida para que estas decidam ter filhos. Horários de trabalho alargados, famílias nucleares reduzidas e em que ambos os progenitores necessitam de trabalhar reduz a disponibilidade para ter filhos e é um entrave ao incremento da natalidade.
Partindo dos pressupostos atrás enunciados, facilmente se compreende que a universalidade do ensino pré-escolar é um imperativo que deve levar qualquer governo a desenvolver políticas de alargamento da rede.
O Ensino Pré-escolar foi durante muitos anos um “luxo” encontrado quase em exclusivo no setor privado. O ensino público não pode ter como objetivo substituir a iniciativa privada, mas tem o dever de permitir que todos possam ter acesso às mesmas oportunidades assim como garantir um ensino de qualidade.
Artigo retirado de: 

Educar para Crescer

Guias da Educação da coleção "Educar para Crescer" disponíveis para download no seguinte link:

http://educarparacrescer.abril.com.br/guias-da-educacao/index.shtml?utm_source=redes_educar&utm_medium=facebook&utm_campaign=redes_educar#inclusao